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A última lenda!

por Alice, em 02.04.09

                                              

 

Era para ali que ia todos os dias. Esperava  que  um  mortal reparasse nela, a ouvisse. Era a última daquela espécie que toda a gente julga ser mito.

Todas as outras sereias tinha optado pela mortalidade ao permitirem que um mortal as seduzisse e beijasse. Ao casarem perdem a imortalidade e deixam de poder comunicar umas com as outras, deixam de se poderem ver. Só um mortal macho pode e consegue ouvir e ver as sereias, de forma que ela estava ali, sozinha, e todas as noites subia áquele rochedo e contemplava as estrelas enquanto deixava que a dor a e a solidão fossem levadas pelo vento.

Tinha ajudado muitos marinheiros,  tinha evitado que navios se partissem contra aquela ilha rochosa. Tinha acenado por entre o nevoeiro a marinheiros incrédulos do que estavam a ver. Tinha visto a evolução naval, era uma adolescente mas na idade mortal, contava já com uns sábios 752 anos.

Aquela noite, que deveria ser como todas as anteriores em que ela se sentava e olhava para o  seu reflexo na mar, foi diferente. Na pequena enseada mais à frente viu  um bote. Movida pela curiosidade nadou até lá e escondeu-se entre as rochas. Viu-a... Muitos anos tinham passado e ali  estava ela , a companheira de muitas brincadeiras. Chorava!!! Estava velha, a idade tinha passado por ela como se os minutos fossem anos, chorava e dizia:

"Se me estiveres a ouvir Pharneleta, nunca permitas que um mortal te leve do paraíso que é o mar. Eu fui, deixei de vos poder ver, de vos poder falar. Não sei sequer se estás ainda aí, se ainda existe alguma de nós. A vida não é como nós aí ouvíamos falar, não é o que imaginávamos,  não é bela e apaixonada, não é alegre, não é boa. Aqui temos que trabalhar muito para podermos ter alimento, aquilo a que nós chamamos amor tem que ser cuidado diariamente para não terminar, aquilo a que nós chamamos paixão passa num abrir e fechar de olhos. Aqui há guerra, há fome, há desgraça, há morte. Aqui há uma coisa que chamamos Sorte e acredita que é precisa muita sorte para ter ao nosso lado um mortal que nos trate  bem, que não  nos bata, que não nos engane, que não nos minta. Sorte foi aquilo que...."

Pharneleta não quis continuar a ouvir, pela primeira vez chorou, a água salgada como o mar escorria-lhe pelo rosto, foi para o alto do rochedo e cantou. Cantou porque sabia que dali a pouco a  amiga ia morrer e dissolver-se na espuma branca do mar. Regressaria às origens!

Decidiu que para toda a eternidade ia ser a última sereia. Tinha todos os peixes e criaturas do mar como amigos, não estava assim tão mal.

 

(Texto escrito por Alice para a Fábrica de Histórias)

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O Dom.

por Alice, em 12.03.09

"A boneca, as pernas de rã, o olho de morcego, os três ramos de hortelã, as três pétalas de rosa, um cabelo meu e uma gota do meu sangue. Tenho tudo, não faltará nada??? Falta o almofariz. Pronto, está tudo."

 -Mãe, vou levar o teu carro, vou ao cinema!

 Esperou uns minutos mas não teve resposta, a mãe estava concentrada na novela. Entrou no carro em direcção ao Monte de Santa Clara. A lua estava cheia, como era preciso, só precisava de saber o que fazer mas tinha tempo para pensar. Só à meia noite é que devia colocar tudo no almofariz e dizer a reza. Eram 9 horas, ainda havia tempo.

 Era simples: as pernas de rã eram para poder nadar, o olho do mercego para poder ver, o cabelo porque era ela que ia fazer o feitiço, a hortelã para ir ao passado e as rosas para ver o futuro. O sangue era para não sair daquela vida.  A mãe de santo que conheceu no Brasil garantiu que funcionava e ela estava curiosa.


 
"O que é que quero ver? O que fui ou o que vou ser? "

 Lara acreditava que as pessoas morriam e reencarnam. Vão evoluindo na enorme cadeia de seres vivos que existe conforme o comportamento que têm na  vida anterior. Numa vida anterior ela podia ter sido um animal, como podia ter sido um homem, ou mulher de muita ou pouca importância.

 Chegou ao monte, encontrou uma clareira, dispôs do material e deitou-se a pensar... O que lhe despertava mais cuiosidade era sem dúvida o futuro, mas estaria ela pronta para o ver? Valeria a pena? E se não fosse um futuro risonho? 

 Lara tinha o dom da premonição, foi herdado da avó paterna e só passava às mulheres da família. O pai aceitava e percebia as angústias que sentia. A mãe nem por isso, e era essa a razão de ter uma relação muito melhor com o pai do que com a mãe. 

Lara não esqueceu a primeira vez o que sentiu. Foi um aperto tão grande no peito que pensou que ía desmaiar. O avô sentou-se ao lado dela, - tinha ela 10 anos - e o que sentiu foi de tal forma arrebatador e angustiante que não conteve o choro, sentia uma tristeza enorme, uma dor que não conseguia explicar. Mais tarde percebeu o porquê: o avô tinha tido um enfarte. No hospital o pai falou com ela e tentou-lhe explicar (tinha ela na altura 10 anos) que iria ter que lidar com aquilo da melhor forma, porque aquela sensação ia ficar toda a sua vida. Soube, ainda antes da mãe, que ía ter um irmão; soube que o papagaio ía fugir porque, o irmão ía, sem querer, deixar a gaiola aberta; um sem número de situações com as quais tinha que lidar quase diariamente. Anos mais tarde tomou uma decisão: não ía fazer daquele dom a missão da vida dela. Não podia alterar o destino das pessoas cada vez que sentia que qualquer coisa ía correr bem ou mal. Não podia viver a vida dela em função deste dom; não o tinha pedido, ele tinha nascido com ela e ela tinha que o aceitar mas nunca deixar de viver por causa disso.

 Olhou para o relógio: 11 horas. É cedo ainda mas vou começar!"

 Colocou dentro do almoafriz a boneca, o olho do morcego, o cabelo e a perna da rã, tudo no sítio certo. O sangue no sítio do coração e tinha que optar: ou hortalã, ou as rosas. Decidiu-se pelas rosas em volta da boneca. Tirou o papel com a reza do bolso e leu em silêncio: "Moon min protectora, tar mig den min framtid. att I-encontrdaqui de 15 åren."  Voltou a olhar o relógio: 11.45h. Sentiu um aperto no coração, algo lhe dizia que se calhar não era assim tão boa idéia desvendar o que a vida tinha para lhe dar. Ía quebrar a surpresa. Os minutos passavam e a angústia e o aperto aumentavam mas ela estava muito curiosa... Chegou a hora. Pôs-se de pé, olhou para o papel e começou a ler em voz alta: "Moon min protectora, tar mig den min". Rasgou o papel, pegou em tudo o que lá tinha e foi-se embora. Sabia que se visse o futuro e não gostasse ía viver atormentada. Se algo de mau acontecesse ela estava pronta para viver e aceitar isso. Não valia a pena arruinar a surpresa em que a vida se pode tornar.

(Texto feito pr Alice para a Fábrica de Histórias)

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A Jornada!

por Alice, em 06.03.09

- Promete que tens cuidado! Quando lá chegares liga-me logo para eu saber que está tudo bem e apanha um táxi, tens a morada da Carolina só tens que a entregar ao taxista,  não te ponhas a aventurar-te em transportes públicos e não fales  com desconhecidos.
- Não te preocupes... prometo que ligo. Já não sou uma criança! Sei tomar conta de mim.
- Isso é o que tu  pensas... Vai lá, a Carolina está à tua espera. Manda saudades e quando o encontrares diz-lhe que... Não digas nada, se perguntar alguma coisa diz que estamos  bem.
 
Sofia entrou na carruagem. Era a primeira vez que viajava sozinha, sentia borboletas na barriga mas estava confiante que iria correr tudo bem. Ao fim de 21 anos ia conhecer o pai.
A história não é triste. Os pais, jovens adolescentes com 17 ou 18 anos,  conheceram-se no primeiro grande festival de Verão no nosso país, amaram-se com a música dos U2 como pano de fundo, regados com muita cerveja e com muito fumo ilícito. Foi inesquecível aquela noite.  Terminou o festival mas eles continuaram a trocar cartas, não de amor porque ambos tinham planos muito diferentes. O pai era um promissor músico de jazz, passava grande parte do ano a viajar, era o mais recente membro de uma famosa banda americana, os Kool & the Gang de forma que passava lá grande parte do ano.  A mãe tinha entrado nesse ano na faculdade de Belas Artes e ambicionava terminar o curso e ir para Barcelona recuperar o património valiosíssimo daquela cidade. O que nenhum deles estava a  contar é que daquela noite, nascesse nove meses mais tarde a Sofia. Não houve lugar a discussões nem a zangas, a mãe decidiu ter a criança e o pai prontificou-se a ajudar em tudo o que fosse preciso ainda que à distância e assim foi. Os planos da mãe foram retomados 2 anos mais tarde, o pai ajudou financeiramente a mãe enquanto pôde e a Sofia ia agora conhecê-lo.
 
Viajava de Lisboa para Paris, o pai era agora músico num famoso clube de jazz daquela capital, a banda entretanto tinha terminado e ele voltou à velha Europa.  Estava a par de quase tudo o que a filha tinha feito nestes 21 anos só não sabia que daí a dois dias ela iria apresentar-se-lhe.
 
A viagem corria bem, por ser Verão tinha oportunidade de conhecer muita gente mais ou menos com a mesma idade com quem conversava partilhava ideias, trocava experiências. Iria até Madrid, uma vez lá apanhava um outro para Paris. Durante a espera podia ver um bocadinho daquela cidade. E assim foi, chegou a Madrid guardou a mala num cacifo, tinha cerca de 5 horas para calcorrear a cidade, a Gran Vía, a Plaza Mayor, passou em frente ao Museu do Prado, ao Museu Rainha Sofia, ficou encantada. 
 
Não conseguia deixar de pensar na cara do pai quando ela lhe dissesse quem era. Ficaria feliz? Sabia que a mãe e ele trocavam correspondência,  não tão assiduamente como em outros tempos mas iam falando...
 
A segunda parte da viagem correu muito lentamente, ou pelo menos foi o que lhe pareceu, nem a companhia de Javier e de Cecília, dois irmãos madrilenos que iam de férias precisamente para Paris lhe fez com que o tempo passasse mais rápido. Chegados à estação de Montparnasse, trocaram telefones e prometeram encontrarem-se para umas voltas na cidade.
 
Agora estava realmente nervosa, tinha chegado ao destino, era uma questão de tempo até se encontrar frente a frente com o homem que sempre quis conhecer. Tinha que ligar à Carolina, amiga da mãe dos tempos da faculdade, deixar as malas, falar com a mãe e ir surpreender o pai. Como é que ele vai reagir? Vai ficar contente? Vai pedir-me para ficar em casa dele? Tenho mais irmãos?
O taxista deixou-a em frente à casa da Carolina, uma bela casa, com um jardim enorme e dois cães  a correr de um lado para o outro, sabia que ela não tinha filhos e que era uma arquitecta de sucesso que tinha ficado viúva há pouco tempo.
 
-Como correu a viagem? Estás preparada para o encontrares? Ele pode não ter a reacção que estás à espera, podes sempre não ir ter com ele, ou indo podes não dizer quem és. Não quero que tenhas uma desilusão...
-Não te preocupes, vou lá e vejo se tenho ou não coragem para falar com ele. Adoro-te mãe.
 
Horas mais tarde, posta a conversa em dia e mais nervosa que nunca Sofia sai sozinha em direcção ao 7 Lézards. Uma vez lá sentou-se no balcão, não teve que esperar muito tempo, quinze minutos mais tarde entram um saxofonista, um baterista e um contra-baixo. Sofia reconheceu-o logo pelos olhos cor de mar que a mãe lhe tinha falado. Era novo, não teria mais de quarenta anos, alto forte e o contra-baixo ficava-lhe muito bem e tocava-o com paixão.  Ele olhou para ela como se a reconhecesse. O espectáculo terminou, os artistas saíram do palco e voltaram para a beira de amigos e conhecidos que lá tinham. Ela manteve-se no balcão, não conseguia tirar os lhos do pai que estava agora  numa mesa com amigos. Cheia de confiança levanta-se e vai em direcção à mesa dele. Fica paralisada a olhar para ele, ele fala-lhe em francês, pergunta se se sente bem e ela responde em português:
-Pode dar-me um autógrafo para a minha mãe?
-Está aqui a tua mãe?
-Não, ficou em Sesimbra. Chama-se Margarida.
Ele soube automaticamente quem ela era, os olhos encheram-se de lágrimas e os dela também. Depois de um abraço longo,  passaram o resto da noite a conversar e as duas semanas que ela lá ia ficar passou-as na companhia do pai.

(Texto escrito por Alice para a Fábrica de Histórias)

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A viagem!!

por Alice, em 19.02.09

- Ssshhhiiiuuuuu!!!!! Não faças barulho! Sabes que até às 2h não é seguro, pode aparecer alguém!!!
 
- Eu sei Leonel. O susto que pregamos a semana passada àqueles dois, foi tão divertido eheheh!!!
 
- Divertido nada, isso só alimenta boatos. Não me apetece nada ter excursões aqui a altas horas da noite. Já me basta os dias que passo fechado. Tenho saudades do sol quentinho e só lhe sinto o calor lá em baixo. Já não sei o que é a luz do dia...
 
- Deixa-te de lamentações, a tua vida agora é isto. Anda, vamos chamar a Ana, ela sabe sempre das últimas novidades.
 
- Vamos mas sem barulho, nunca se sabe o que podemos encontrar na escuridão.
 
(Leonel e Ana deslizam suave e silenciosamente na relva verde, fresca e humedecida pelo orvalho)
 
- Ana!!! - sussurra Carolina. - Aaaana!!!
 
 
(Dos três amigos, Ana era a mais velha e a que lá estava há mais tempo)
 
-Bem, tu hoje estás linda. Noutra circunstância diria que tens um encontro com alguém....
 
-Obrigada Leonel, a verdade é que tenho. Sabes que aqui ao pé da capela oiço tudo e o nosso querido António estava a conversar com a Zulmira, aquela que vem todos os dias visitar o antipático do Luís, sabes? E amanhã vamos ter companhia nova.
 
-Quem é? Quem é? Conhecemos? - pergunta Carolina entusiasmada.
 
-É o meu Zé! Ao fim de 15 anos vem juntar-se a mim para toda a eternidade. Ai as saudades que sinto dele!!!!
 
- Estou muito feliz por ti, muito mesmo - diz Leonel. O que é preciso é companhia nova Eheheh!!! A minha passagem na terra foi tão breve que à excepção dos meus pais e irmãos não tenho ninguém que deseje ter aqui ao pé de mim, mas para eles ainda é cedo. Os meus irmãos são umas crianças ainda, demasiado pequenos para ficarem sozinhos... Vou chamar o João, quero assombrar o nosso António, ele anda a esquecer-se de mim. A minha relva não é aparada e a minha lápide limpa já não sei há quanto tempo, aquilo está que mete nojo!!!!
 
- Ok, vai lá e divirtam-se. Vou ficar com a Ana, tratar-te do cabelo, tirar-te essas  larvas e pôr-te linda para o teu Zé.
 
Leonel afasta-se em direção à lápide do João porque esta noite vão fazer das deles. Ana e Carolina ficam a conversar sob o luar ameno e pratedado. Aos primeiros raios de sol, todos terão que voltar às suas campas com a promessa de se juntarem na noite seguinte para a festa de boas vindas ao Zé.
 
(Texto fabricado por Alice para a Fábrica de História).

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