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As outras crianças!!

por Alice, em 02.06.09

Queres que fale de crianças... Para mim não é fácil. Não nutro empatia com elas e nem elas por mim. Gosto de as ver a brincar ao longe, de forma a não as conseguir ouvir. 

 

Gosto de pegar num bébé ao colo, até gosto de ver e de sentir aquele projecto de ser humano, tão indefeso, tão puro, tão quentinho, a cheirar bem,  a apertar os dedos, a olhar para nós a tentar perceber quem somos e então  quando eles soltam aquelas gargalhadas típicas de bébé, é de derreter o coração.

 

Conheci um grupo de crianças e vou tendo algum contacto com elas, as chamadas crianças de risco, já deves ter ouvido falar.

 

A Jéssica, é uma Açoriana que está cá há uns quatro anos mas ainda tem aquele sotaque serrado. Tem 16 anos. Nos Açores estava numa família de acolhimento mas segundo contou não era a família perfeita. Não sei o que aconteceu aos pais dela para ter ido parar ali. Com 12 anos começou a fumar cigarros.  Lá na escola rapidamente se tornou uma "marginal" por só querer estar ao pé dos rapazes e raparigas que fumam e dos cigarros aos charros e à erva foi um repente. Em casa não se importavam muito com ela, as notas da escola, o que ela fazia, as companhias com quem andava não era a  principal preocupação. A preocupação daquela mãe de acolhimento era ter cigarros para fumar e cerveja para beber.  Passado pouco tempo constou-se e verificou-se ser verdade, ela andava com um senhor de 60 anos. Consequencias para a família de adopção, se houve ela não sabe mas continuam a obter rendimentos da Segurança Social através do acolhimento de crianças. Ainda tem amigos de lá que lhe telefonam, dos quais sente saudades e à pouco tempo disseram-lhe que ela tem agora um irmão novo.

Veio para o continente e embora agora esteja adaptada, no inicio era uma miúda revoltada, rebelde, não acatava ordens e quando cismava que queria qualquer coisa nova, não descansava até a ter, nem que para isso tivesse que partir o velho. Fez isso com uns óculos. Dizia que os óculos comprados nos Açores lhe faziam lembrar os pais adoptivos e por isso queria uns novos. Tanto andou que para levar a dela adiante partiu os velhos e tiveram que lhe comprar uns novos. Era mal criada com as outras crianças, com os responsáveis, com os professores na escola. Ainda é um bocadinho, ainda fuma às escondidas, pede cigarros aos amigos da escola.  A Jéssica foi e teve  tudo o que uma criança com 12 anos não deve ser nem deve experimentar.

 

"Eu aqui estou feliz e dos Açores, tenho saudades dos meus amigos e dos meus primos. Não queria voltar para lá." disse-me ela.

 

A Filipa é uma menina linda com agora 8 anos, tem os  olhos azuis, é muito dócil, muito simpática, muito tímida,é raro ouvir-lhe a voz mas quando fala, tem um timbre de mulher adulta. Ela e a irmã vieram do Porto de um daqueles bairros que pelas piores razões, de vez em quando aparecem nos telejornais. A mãe ao que parece deixava-as em casa sozinhas para ir ganhar dinheiro para a droga a vender o corpo. Não era raro levar os clientes para casa, para o quarto ao lado onde as meninas dormiam. Está ali há uns 5 anos. Ao fim de semana, de vez em quando, vai visitar os avós, a mãe está proibida de as ver.

 

O Pedro é o poeta lá do sítio. Anda a tirar um curso profissional de mecânica e está a adorar. Muito bom aluno, muito atento, muito interessado por tudo. Ajuda os mais novos  nos trabalhos de casa e a estudarem. Não sei a história do passado dele mas sei esteve durante meses  sem abrir a boca, sem falar. Agora fala pelos cotovelos e é lambareiro como ninguém.

 

A Maíta, veio da Guiné com 10 anos para ser tratada no Hospital S. João a um problema grave de saúde. Veio sozinha e enquanto aguardava que os tratamentos terminassem ficou naquele centro. Ela tem família na Guiné, que a estima, que a acarinha, que se preocupa com ela. Enquanto cá esteve ensinou aqueles meninos e meninas a poupar recursos, explicou-lhes qual era a realidade do país dela. Ficou impressionada com os computadores e telemóveis e com as roupas que via por aqui.

Ensinou-os a dançar dunumba, que eu acho ser uma dança tradicional do país dela. Já voltou há muito tempo à Guiné e está bem.

 

Estas são algumas das crianças que me comovem, de quem eu gosto e muito. São crianças que com tão pouca idade já passaram por coisas que com o dobro da idade delas nunca sequer experimentei. São crianças que dão valor a um bolo que se lhes leve, a um livro, a um conjunto de marcadores ou lápis de cor. Sao seres humanos que não tiveram sorte com o pilar mais sólido que se deve ter, a familia.

 

Isto não é uma história, é o relato de uma realidade e muitas mais e bem piores haverão por aí. 

Texto escrito por Alice para a Fábrica de Histórias.

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2 comentários

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De Cloudy a 02.06.2009 às 17:42

Essas são aquelas que dá vontade de resgatar, de mostrar como também elas têm direito a um mundo melhor e mais bonito, aquelas que têm talvez mais sabedoria que muitos, infelizmente pelas piores razões... e é bom vê-los evoluir, crescer, sobretudo como seres- humanos. Beijocas. Gostei muito!
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De Alice a 02.06.2009 às 18:07

É uma família que ali está, a melhor que tiveram até hoje!
Beijoquitas...

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