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A Jornada!

por Alice, em 06.03.09

- Promete que tens cuidado! Quando lá chegares liga-me logo para eu saber que está tudo bem e apanha um táxi, tens a morada da Carolina só tens que a entregar ao taxista,  não te ponhas a aventurar-te em transportes públicos e não fales  com desconhecidos.
- Não te preocupes... prometo que ligo. Já não sou uma criança! Sei tomar conta de mim.
- Isso é o que tu  pensas... Vai lá, a Carolina está à tua espera. Manda saudades e quando o encontrares diz-lhe que... Não digas nada, se perguntar alguma coisa diz que estamos  bem.
 
Sofia entrou na carruagem. Era a primeira vez que viajava sozinha, sentia borboletas na barriga mas estava confiante que iria correr tudo bem. Ao fim de 21 anos ia conhecer o pai.
A história não é triste. Os pais, jovens adolescentes com 17 ou 18 anos,  conheceram-se no primeiro grande festival de Verão no nosso país, amaram-se com a música dos U2 como pano de fundo, regados com muita cerveja e com muito fumo ilícito. Foi inesquecível aquela noite.  Terminou o festival mas eles continuaram a trocar cartas, não de amor porque ambos tinham planos muito diferentes. O pai era um promissor músico de jazz, passava grande parte do ano a viajar, era o mais recente membro de uma famosa banda americana, os Kool & the Gang de forma que passava lá grande parte do ano.  A mãe tinha entrado nesse ano na faculdade de Belas Artes e ambicionava terminar o curso e ir para Barcelona recuperar o património valiosíssimo daquela cidade. O que nenhum deles estava a  contar é que daquela noite, nascesse nove meses mais tarde a Sofia. Não houve lugar a discussões nem a zangas, a mãe decidiu ter a criança e o pai prontificou-se a ajudar em tudo o que fosse preciso ainda que à distância e assim foi. Os planos da mãe foram retomados 2 anos mais tarde, o pai ajudou financeiramente a mãe enquanto pôde e a Sofia ia agora conhecê-lo.
 
Viajava de Lisboa para Paris, o pai era agora músico num famoso clube de jazz daquela capital, a banda entretanto tinha terminado e ele voltou à velha Europa.  Estava a par de quase tudo o que a filha tinha feito nestes 21 anos só não sabia que daí a dois dias ela iria apresentar-se-lhe.
 
A viagem corria bem, por ser Verão tinha oportunidade de conhecer muita gente mais ou menos com a mesma idade com quem conversava partilhava ideias, trocava experiências. Iria até Madrid, uma vez lá apanhava um outro para Paris. Durante a espera podia ver um bocadinho daquela cidade. E assim foi, chegou a Madrid guardou a mala num cacifo, tinha cerca de 5 horas para calcorrear a cidade, a Gran Vía, a Plaza Mayor, passou em frente ao Museu do Prado, ao Museu Rainha Sofia, ficou encantada. 
 
Não conseguia deixar de pensar na cara do pai quando ela lhe dissesse quem era. Ficaria feliz? Sabia que a mãe e ele trocavam correspondência,  não tão assiduamente como em outros tempos mas iam falando...
 
A segunda parte da viagem correu muito lentamente, ou pelo menos foi o que lhe pareceu, nem a companhia de Javier e de Cecília, dois irmãos madrilenos que iam de férias precisamente para Paris lhe fez com que o tempo passasse mais rápido. Chegados à estação de Montparnasse, trocaram telefones e prometeram encontrarem-se para umas voltas na cidade.
 
Agora estava realmente nervosa, tinha chegado ao destino, era uma questão de tempo até se encontrar frente a frente com o homem que sempre quis conhecer. Tinha que ligar à Carolina, amiga da mãe dos tempos da faculdade, deixar as malas, falar com a mãe e ir surpreender o pai. Como é que ele vai reagir? Vai ficar contente? Vai pedir-me para ficar em casa dele? Tenho mais irmãos?
O taxista deixou-a em frente à casa da Carolina, uma bela casa, com um jardim enorme e dois cães  a correr de um lado para o outro, sabia que ela não tinha filhos e que era uma arquitecta de sucesso que tinha ficado viúva há pouco tempo.
 
-Como correu a viagem? Estás preparada para o encontrares? Ele pode não ter a reacção que estás à espera, podes sempre não ir ter com ele, ou indo podes não dizer quem és. Não quero que tenhas uma desilusão...
-Não te preocupes, vou lá e vejo se tenho ou não coragem para falar com ele. Adoro-te mãe.
 
Horas mais tarde, posta a conversa em dia e mais nervosa que nunca Sofia sai sozinha em direcção ao 7 Lézards. Uma vez lá sentou-se no balcão, não teve que esperar muito tempo, quinze minutos mais tarde entram um saxofonista, um baterista e um contra-baixo. Sofia reconheceu-o logo pelos olhos cor de mar que a mãe lhe tinha falado. Era novo, não teria mais de quarenta anos, alto forte e o contra-baixo ficava-lhe muito bem e tocava-o com paixão.  Ele olhou para ela como se a reconhecesse. O espectáculo terminou, os artistas saíram do palco e voltaram para a beira de amigos e conhecidos que lá tinham. Ela manteve-se no balcão, não conseguia tirar os lhos do pai que estava agora  numa mesa com amigos. Cheia de confiança levanta-se e vai em direcção à mesa dele. Fica paralisada a olhar para ele, ele fala-lhe em francês, pergunta se se sente bem e ela responde em português:
-Pode dar-me um autógrafo para a minha mãe?
-Está aqui a tua mãe?
-Não, ficou em Sesimbra. Chama-se Margarida.
Ele soube automaticamente quem ela era, os olhos encheram-se de lágrimas e os dela também. Depois de um abraço longo,  passaram o resto da noite a conversar e as duas semanas que ela lá ia ficar passou-as na companhia do pai.

(Texto escrito por Alice para a Fábrica de Histórias)

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2 comentários

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De Alice a 07.03.2009 às 14:46

Muito obrigada. Gostei muito da tua também...

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