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O Dom.

por Alice, em 12.03.09

"A boneca, as pernas de rã, o olho de morcego, os três ramos de hortelã, as três pétalas de rosa, um cabelo meu e uma gota do meu sangue. Tenho tudo, não faltará nada??? Falta o almofariz. Pronto, está tudo."

 -Mãe, vou levar o teu carro, vou ao cinema!

 Esperou uns minutos mas não teve resposta, a mãe estava concentrada na novela. Entrou no carro em direcção ao Monte de Santa Clara. A lua estava cheia, como era preciso, só precisava de saber o que fazer mas tinha tempo para pensar. Só à meia noite é que devia colocar tudo no almofariz e dizer a reza. Eram 9 horas, ainda havia tempo.

 Era simples: as pernas de rã eram para poder nadar, o olho do mercego para poder ver, o cabelo porque era ela que ia fazer o feitiço, a hortelã para ir ao passado e as rosas para ver o futuro. O sangue era para não sair daquela vida.  A mãe de santo que conheceu no Brasil garantiu que funcionava e ela estava curiosa.


 
"O que é que quero ver? O que fui ou o que vou ser? "

 Lara acreditava que as pessoas morriam e reencarnam. Vão evoluindo na enorme cadeia de seres vivos que existe conforme o comportamento que têm na  vida anterior. Numa vida anterior ela podia ter sido um animal, como podia ter sido um homem, ou mulher de muita ou pouca importância.

 Chegou ao monte, encontrou uma clareira, dispôs do material e deitou-se a pensar... O que lhe despertava mais cuiosidade era sem dúvida o futuro, mas estaria ela pronta para o ver? Valeria a pena? E se não fosse um futuro risonho? 

 Lara tinha o dom da premonição, foi herdado da avó paterna e só passava às mulheres da família. O pai aceitava e percebia as angústias que sentia. A mãe nem por isso, e era essa a razão de ter uma relação muito melhor com o pai do que com a mãe. 

Lara não esqueceu a primeira vez o que sentiu. Foi um aperto tão grande no peito que pensou que ía desmaiar. O avô sentou-se ao lado dela, - tinha ela 10 anos - e o que sentiu foi de tal forma arrebatador e angustiante que não conteve o choro, sentia uma tristeza enorme, uma dor que não conseguia explicar. Mais tarde percebeu o porquê: o avô tinha tido um enfarte. No hospital o pai falou com ela e tentou-lhe explicar (tinha ela na altura 10 anos) que iria ter que lidar com aquilo da melhor forma, porque aquela sensação ia ficar toda a sua vida. Soube, ainda antes da mãe, que ía ter um irmão; soube que o papagaio ía fugir porque, o irmão ía, sem querer, deixar a gaiola aberta; um sem número de situações com as quais tinha que lidar quase diariamente. Anos mais tarde tomou uma decisão: não ía fazer daquele dom a missão da vida dela. Não podia alterar o destino das pessoas cada vez que sentia que qualquer coisa ía correr bem ou mal. Não podia viver a vida dela em função deste dom; não o tinha pedido, ele tinha nascido com ela e ela tinha que o aceitar mas nunca deixar de viver por causa disso.

 Olhou para o relógio: 11 horas. É cedo ainda mas vou começar!"

 Colocou dentro do almoafriz a boneca, o olho do morcego, o cabelo e a perna da rã, tudo no sítio certo. O sangue no sítio do coração e tinha que optar: ou hortalã, ou as rosas. Decidiu-se pelas rosas em volta da boneca. Tirou o papel com a reza do bolso e leu em silêncio: "Moon min protectora, tar mig den min framtid. att I-encontrdaqui de 15 åren."  Voltou a olhar o relógio: 11.45h. Sentiu um aperto no coração, algo lhe dizia que se calhar não era assim tão boa idéia desvendar o que a vida tinha para lhe dar. Ía quebrar a surpresa. Os minutos passavam e a angústia e o aperto aumentavam mas ela estava muito curiosa... Chegou a hora. Pôs-se de pé, olhou para o papel e começou a ler em voz alta: "Moon min protectora, tar mig den min". Rasgou o papel, pegou em tudo o que lá tinha e foi-se embora. Sabia que se visse o futuro e não gostasse ía viver atormentada. Se algo de mau acontecesse ela estava pronta para viver e aceitar isso. Não valia a pena arruinar a surpresa em que a vida se pode tornar.

(Texto feito pr Alice para a Fábrica de Histórias)

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2 comentários

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De Cloudy a 12.03.2009 às 17:00

Ora bolas... então e o resto?!?!?!
Muito gira amiga!
Beijocas
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De Marta a 12.03.2009 às 18:10

Belo final


Beijinhos

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